Porque a filosofia é negócio de todos

por Mortimer Adler, Ph.D.

Tradução: Caio Fonseca

 

Alguém pode ser um ser humano culto sem ser versado neste ou naquele campo especializado de ciência empírica. Tal conhecimento pertence ao especialista, não ao generalista. Mas alguém não pode ser um ser um ser humano culto sem saber a história da ciência e sem ter algum conhecimento filosófico de ciência. Tornar-se um ser humano culto também envolve alguma compreensão da história da história e da filosofia, e algum entendimento da filosofia da história e da filosofia. Esta é uma razão pelas quais digo que a filosofia é negócio de todos.

 

Não é qualquer um que é chamado a ser advogado, médico, contador, ou engenheiro; por sua vez, não é qualquer um também que é chamado a se engajar em algum campo de pesquisa histórica ou pesquisa científica. Mas qualquer um é chamado a filosofar; indivíduos pensantes, saibam eles ou não, tem alguns traços de percepção ou análise filosófica em seus momentos de reflexão. Ser refletivo sobre a experiência de alguém ou sobre o que os seres humanos chamam de senso comum é ser filosófico sobre isto.

 

Por ser a filosofia negócio de todos, como nenhuma outra faculdade mental individual, todo indivíduo pensante é, em momentos reflexivos, um filósofo, e que qualquer um filosofe e seja enriquecido por fazer isto, não é o mesmo que dizer que qualquer um deva aspirar a se tornar professor de filosofia. Tente imaginar um mundo no qual tudo é exatamente o mesmo, mas no qual toda filosofia é totalmente ausente. Eu não quero dizer apenas filosofia acadêmica. Eu quero dizer filosofia em qualquer grau – aquela feita por homens e mulheres comuns ou de forma inexperiente por cientistas, historiadores, poetas, e romancistas, bem como aquela feita com competência técnica por filósofos profissionais.

 

Desde que filosofar é uma tendência humana impregnada e arraigada, eu sei que é difícil imaginar um mundo sem filosofia no qual tudo é o mesmo, incluindo a natureza humana; ainda não é menos difícil imaginar um mundo sem sexo no qual tudo o mais é o mesmo.

 

No mundo que eu pedi para você imaginar, todas as outras artes e ciências permanecem empreendimentos contínuos; história e ciência são ensinadas em faculdades e universidades; e é assumido sem questionamento que a educação de qualquer um deve incluir algum conhecimento com elas. Mas a filosofia é completamente eliminada.

 

Ninguém se pergunta qualquer questão filosófica; ninguém filosofa; ninguém tem qualquer conhecimento, percepção ou entendimento filosófico; filosofia não é ensinada ou aprendida; e nenhum livro de filosofia existe. Isso faria diferença para você? Você estaria completamente satisfeito em viver em tal mundo? Ou você chegaria à conclusão de que lhe faltou algo importante?

 

Você imaginaria – não imaginaria? – que apesar da educação envolver a aquisição de conhecimento histórico e científico, ela não poder incluir qualquer entendimento tanto da ciência quanto da história, visto que as questões sobre história e ciência (diferentemente das questões factuais) não são questões históricas ou científicas, mas questões filosóficas.

 

Você também imaginaria que muitas das suas opiniões ou crenças, compartilhadas com seus amigos, teriam que ser inquestionáveis, porque questioná-las seria filosofar; elas permaneceriam opiniões ou crenças obscuras, porque qualquer iluminação destes assuntos teria de vir a partir de uma filosofia sobre elas.

 

Você estaria impedido de perguntar questões sobre você mesmo e sua vida, questões sobre a forma do mundo e seu lugar nele, questões sobre o que você deveria estar fazendo e o que você deveria estar procurando – todas questões que, de uma forma ou outra, você de fato faria, e acharia difícil  desistir de perguntar.

 

Este experimento não resolve os problemas com os quais este livro se preocupa. Ele meramente justifica o esforço, do escritor e do leitor, de considerar as condições que a filosofia técnica ou acadêmica deve satisfazer de modo a prover a orientação que deveria dar a qualquer um no seu esforço de filosofar; e de modo a suprir a iluminação que nós conhecemos, ou deveríamos conhecer, por ser impossível de se obter pela história e pela ciência e que, então, estaria faltando em um mundo privado de filosofia.

 

Sistemas filosóficos são peculiarmente modernos – e lamentáveis – fenômenos. Nós não os encontramos nos diálogos de Platão ou nos tratados de Aristóteles; nem podemos encontrá-los nos grandes trabalhos filosóficos da Idade Média.

 

O procedimento de Aristóteles nas páginas de vários de seus tratados é o de analisar o que seus predecessores ou contemporâneos tem a dizer sobre assunto com o qual ele está lidando, e então tentar separar o joio do trigo. Vale a pena citar aqui duas passagens nas quais ele explicitamente resume este procedimento de um trabalho filosófico como um empreendimento público e privado.

 

No Capítulo I da sua Metafísica, ele escreve: “A investigação da verdade é por um lado difícil, por outro fácil. Uma indicação para isto seria encontrada no fato de que ninguém é capaz de se ater à verdade adequadamente, enquanto, por outro lado, nós não falhamos coletivamente, mas qualquer um diz algo verdadeiro sobre a natureza das coisas, e enquanto individualmente contribuímos pouco ou nada para a verdade, pela união de todos uma quantidade considerável é reunida.”

 

No Capítulo II do seu tratado “De animas”, Aristóteles escreve: “… é necessário… chamar a conselho as visões de nossos predecessores… de modo que nós possamos lucrar pelo que seja sadio em suas sugestões e evitar seus erros”. Em meados da década de 40, eu escrevi ensaios sobre as 102 idéias que formam o Syntopicon, que foram então anexadas aos “Grandes Livros do Mundo Ocidental” (Great Books of the Western World), publicado em 1952. Eu, então, não percebi que estes ensaios eram um tipo de resumo dialético do pensamento ocidental em controvérsias filosóficas básicas, que foram fracamente levadas adiante porque os filósofos tão raramente juntavam o assunto e argumentavam relevantemente contra outro.

 

Apesar de eu escrever todos os 102 ensaios, aquilo não poderia ter sido feito por mim sem a ajuda de uma grande equipe de leitores que se engajaram na produção do Syntopicon. Eu estava totalmente consciente, no entanto, da diferença entre o tipo de escrito que relata os achados da pesquisa dialética e o tipo de escrito que expunha a visão filosófica de um indivíduo em particular. Desde que essa diferença é tão importante no entendimento da própria filosofia, deixe-me estabelecê-la brevemente aqui.

 

Escritos dialéticos se abstêm de fazer julgamentos sobre a verdade ou falsidade das visões filosóficas ou das doutrinas que analisa. Para proceder dialeticamente, alguém deve lidar com todas as visões diferentes que são encontradas com completa imparcialidade e neutralidade, ou seja, sem favorecer um ponto contra outro. Alguém deve estar sem ponto de vista ao tratar todos os pontos de vista.

 

Para ser um filósofo, alguém deve fazer a cabeça de outrem sobre onde repousa a verdade nos grandes assuntos, que preencheram páginas de controvérsias filosóficas. Algumas das mesmas idéias que escrevi sobre dialética nos ensaios do Syntopicon, tenho abordado em novos ensaios filosóficos. Nestes argumentei pela verdade das visões que sustentei, contra as visões opostas que rejeitei.

 

A filosofia corrige e purifica algumas das opiniões e convicções sustentadas pelo senso comum, mas a filosofia é também contínua com o senso comum, e elucida suas mais profundas convicções pelo fornecimento de sua base racional e elaboração.

 

O último ponto joga luz no porque da filosofia ser negócio de todos. Senso comum é uma posse humana comum. Nós todos vivemos no mesmo mundo, participamos em elementos comuns de nossa experiência dele, tendo mentes humanas que são especificamente as mesmas em todos os membros das espécies. Então, quando seres humanos filosofam em momentos de reflexão sobre os problemas sérios que confrontam todos, eles compartilham o mesmo pano de fundo. Apenas aqueles que fazem da filosofia sua vocação para a vida adquirem as habilidades intelectuais para ir mais fundo e além do que os indivíduos reflexivos que partilham do senso comum.

 

Extraído do “Prólogo”, The Four Dimensions of Philosophy (Macmillan Publishing Company, 1993).

Publicado em: on Março 6, 2007 at 1:32 pm Comentários (1)

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  1. Muito bom o texto e tradução muito boa também.
    Parabéns.


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