A Filosofia Clássica contra o clima geral de Opinião(Eric Voegelin)

 

O esforço dos Gregos em chegarem a um entendimento de sua humanidade culminou na criação Platônica-Aristotélica da filosofia como ciência da natureza humana. Seus resultados se encontram ainda mais em contradição com a opinião geral contemporânea do que com os  sofistas de seu tempo. Irei enumerar alguns dos principais pontos de conflito:

1)                        Clássicos:Existe uma natureza humana, uma estrutura definida da existência que coloca limites na capacidade de aperfeiçoamento do ser humano. Modernos: A natureza humana pode ser mudada, seja através da evolução histórica ou através da ação revolucionária, fazendo com que um reinado da perfeita liberdade possa ser estabelecido na história.

2)                        Clássicos: A Filosofia é o projeto de se avançar da opinião(doxa) sobre a ordem humana e a sociedade para a ciência(episteme); o filósofo não é uma amante da opinião. Modernos: Nenhuma ciência sobre tais assuntos é possível, somente opinião; todo mundo tem direito a suas opiniões; vivemos em uma sociedade “pluralista”.

3)                        Clássicos: A sociedade é o homem escrito por extenso. Modernos: O homem é a sociedade escrita diminutamente.

4)                        Clássicos: O homem vive em uma tensão erótica em direção à base divina de sua existência. Modernos: Ele não vive assim; pois eu não e eu sou a medida do Homem.

5)                        Clássicos: O homem é perturbado pela questão do fundamento da existência; por natureza ele é um questionador (aporein) e pesquisador(zetein)  da origem, do destino e do porquê de sua existência; ele tende a levantar a questão: Por que há alguma coisa e não nada? Modernos:  Tais questões são inúteis (Comte); não as pergunte, seja um homem socialista(Marx); questões para as quais as ciências das coisas imanentes ao mundo não podem dar resposta são sem sentido, são Scheinprobleme(neopositivismo).

6)                        Clássicos: O sentimento de angústia existencial, o desejo de saber, o sentimento de se ser obrigado a questionar, o questionamento e a busca por si mesmos, o direcionamento do questionamento para o fundamento que obriga à sua busca, o reconhecimento do fundamento divino como primeiro-motor, tudo isto faz parte do complexo experiencial, o pathos, onde a realidade da participação divina-humana (metalepsis) se torna luminosa. A exploração da realidade metaléptica, da metaxy Platônica, assim como a articulação da ação exploradora através de símbolos lingüísticos, no caso os mitos platônicos, são as preocupações centrais do esforço filosófico. Modernos: A resposta moderna a esta questão varia com a “opinião pública”…… O analfabetismo filosófico progrediu tanto que o núcleo da experiência filosofante desapareceu abaixo do horizonte e não é reconhecido mesmo quando aparece em filósofos como Bergson. O processo de aculturação o eclipsou tanto através da opinião que as vezes se é inclinado a dizer que existe até mesmo uma indiferença em relação a este núcleo.

7)                        Clássicos: A educação é arte do periagoge, da metanóia (Platão). Modernos: Educação é arte de se ajustar as pessoas  solidamente ao clima geral de opinião prevalente, fazendo com que elas não sintam nenhum “desejo de conhecer”. Educação é arte de impedir as pessoas de adquirirem o conhecimento que lhes permitiria articular as questões existenciais. Educação é arte de se pressionar pessoas jovens a um estado de alienação que irá resultar ou em uma calma desilusão ou em uma militância agressiva.

8 )                        Clássicos: O processo no qual a realidade metaléptica se torna consciente e noeticamente articulada é o processo no qual a natureza humana se torna luminosa para si mesma como vida racional. O homem é o zoon noun echon. Modernos: A Razão é a razão instrumental. Não há nada como uma razão noética do homem.

9)                        Clássicos: Através da vida racional (bios theoretikos) o homem realiza sua liberdade. Modernos: Platão e Aristóteles eram fascistas. A vida racional é um projeto fascista.

Esta enumeração não é nem remotamente exaustiva. Qualquer um pode suplementá-la com novos itens retirados da literatura de opinião e da mídia de massas, de conversas com colegas e estudantes. Whitehead disse a verdade quando afirmou que a filosofia moderna tinha sido arruinada. E , para piorar, os conflitos(com a filosofia clássica) foram formulados de tal forma que o caráter grotesco ligado a deformação da humanidade nas mãos do “clima de opinião” se tornou completamente  visível.

O grotesco, no entanto, não deve ser confundido com o cômico ou humorístico. A seriedade da matéria será melhor entendida, se se visualizar os campos de concentração dos regimes totalitários e as câmaras de gás de Auschwitz onde o caráter grotesco da doxa (opinião) se torna a realidade assassina da ação.

Publicado em: on Abril 2, 2007 at 1:45 pm Comentários (4)

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4 Comentários Leave a comment.

  1. Clássicos: A sociedade é o homem escrito por extenso. Modernos: O homem é a sociedade escrita diminutamente.

    Interessante.

    O homem é produto do meio, é outra maneira de dizer isso.

    Bem, sempre será mais fácil para qualquer pessoa imaginar um meio de reformar a sociedade que tentar se aprimorar.

  2. Uma tradução desse texto de Voegelin feita pelo autor do Blog ‘ O Humanista’, que me parece mais burilada, se encontra aqui

  3. Outra tradução, que me parece mais burilada.

  4. Ô David, desculpe aí o duplo comentário… É que o meu navegador não aceitou o cancelamento do primeiro deles. :-\

    Há uma introdução aos Published Essays pelo Lonergan Institute, aqui. É muito boa.


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