Capítulo 1 – O Sentimento não sentimental (Ideas Have Consequences, Richard Weaver).

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Capítulo 1 – O Sentimento não sentimental (Ideas Have Consequences, Richard Weaver). 

   

         Todo homem que participa de uma cultura têm três níveis de reflexão consciente: suas idéias específicas sobre as coisas, suas crenças gerais e convicções e seu sonho metafísico sobre o mundo.

 

O primeiro são os pensamentos que ele utiliza em sua vida cotidiana; eles dirigem sua organização dos assuntos imediatos e constituem portanto sua mundanidade.  É possível viver unicamente neste nível em períodos limitados, apesar de que a mundanidade pura deva inevitavelmente gerar desamornia e conflito.

 

Acima disto se encontra seu corpo de crenças, algumas das quais podem ser somente heranças, mas também outras que ele adquiriu através sua reflexão ordinária. Até as almas mais simples definem algumas concepções rudimentares sobre o mundo, as quais ele repetidamente utiliza assim que escolhas sejam necessárias. Mas este nível também depende de algo mais geral.

 

Acima de tudo está um sentimento intuitivo sobre a natureza imanente da realidade e é  esta sanção que valida em última instância as idéias e crenças. Sem o sonho metafísico é impossível pensar nos homens vivendo juntos harmoniosamente por algum período de tempo. O sonho carrega consigo um julgamento, que é que é o elo da comunhão espiritual.

 

Quando dizemos que a filosofia começa com o espanto, estamos afirmando na verdade que o sentimento é anterior a razão. Não focamos nossa razão sobre nada até que tenhamos sido atraídos por um interesse afetivo. Na vida cultural do homem, portanto, o fato de maior importância sobre qualquer um é sua atitude para com o mundo. Quão freqüentemente nos chamam a atenção para o fato de que nada de bom pode ser feito quando a intenção é errada! A razão não pode justificar a si mesma. Não por acaso o diabo já foi chamado de príncipe dos advogados, e também não por acidente são os vilões de Shakespeare excelentes no raciocínio. Se a intenção é errônea, a razão aumenta a malignidade, se está certa a razão organiza e faz avançar o bem.  Não temos autoridade alguma para argumentar sobre qualquer coisa de natureza política e social a não ser que tenhamos demonstrando por nossa volição primária que aprovamos alguns aspectos do mundo existente. A posição é arbitrária, no sentido de que aqui está uma proposição por trás de qual não existe nada anterior. Começamos nossas outras afirmações após uma declaração categórica de que a vida e o mundo devem ser valorizados.

Parece, portanto, que a cultura é originalmente uma questão de se dizer sim e a partir disso podemos entender porque seu florescimento mais esplêndido muitas vezes se encontra em proximidade com a fase primitiva de um povo, quando existem poderosos sentimentos de “dever” em relação ao mundo e antes que a irritação nervosa tenha se iniciado.

 

A aprovação simples é somente o passo inicial; uma cultura avançada é uma forma de olhar para mundo através de um agregado de símbolos, fazendo com que os fatos empíricos se tornem significativos e o homem sinta que está participando de um drama onde as decisões cruciais sustentam o interesse e mantêm a tônica de seu ser. Por esta razão uma cultura verdadeira não pode se contentar com um sentimento que seja sentimentalista em relação ao mundo. Deve haver uma fonte de clareza, de organização e hierarquia, que proverá bases para o emprego da faculdade racional. O homem começa esta clarificação quando se torna um mitólogo, sendo que o próprio Aristóteles já havia notado a relação próxima entre a criação de mitos e a filosofia. Essa poesia da representação, retratando um mundo ideal, é uma grande força de coesão, obrigando povos inteiros à aceitação de um projeto e fundindo suas vidas imaginativas. Depois vem o filósofo, que aponta as conexões necessárias entre os fenômenos, mas que pode, por outro lado, abandonar o nível pedestre para  falar de nosso destino final.

 

Então, na realidade de sua existência, o homem é impulsionado por trás pelo sentimento afirmativo da vida e lançado para frente por alguma concepção do que ele deve ser. A extensão até a qual sua vida é moldada, entre estes motivos, pelas condições do mundo físico não é determinável, e tantas supostas limitações foram transcendidas que nos fazem ao menos admitir a possibilidade de que a vontade tenha alguma influência sobre elas.

 

O objetivo mais importante que alguém deve atingir é esta visão imaginativa do que no mais são fatos empíricos brutos, o “donnee” do mundo. Sua faculdade racional estará então a serviço de uma visão que possa salvar seu sentimento da sentimentalidade. Não há significado nenhum para o som e fúria da vida, assim como em uma tragédia de palco, ao menos que algo esteja sendo afirmada pela ação completa. E podemos dizer que a ação deve estar dentro dos limites da razão para que nossos sentimentos em relação a ela tenham a  proporção e a forma correta, o que é uma maneira de dizer que são justos. O ignorante filosófico vicia suas próprias ações ao não observar a devida medida. Isto explica porque períodos pré-culturais são caracterizados pela ausência de forma e os pós-culturais pelo conflito de formas. A planície escura, coberta por alarmes, que ameaça se tornar o mundo do futuro, é uma arena em que idéias conflitantes, numerosas após o acúmulo de séculos, são libertadas da disciplina antes imposta por concepções transcendentais. Este declínio tende a confusão; somos agitados pelos sentidos e olhamos com espanto para as criações serenas e sonambulísticas de almas que possuíam o suporte metafísico. Nossas idéias se tornaram percepções convenientes e aceitamos a contradição, pois não mais sentimos a necessidade de relacionar os pensamentos ao sonho metafísico.

 

É claro que a lógica depende do sonho, e não o sonho dela. Devemos admitir isto quando entendemos que o processo lógico depende em última instância da classificação, que a classificação se dá pela identificação e que a identificação é intuitiva. Segue-se, portanto, que o esmorecer do sonho resulta na confusão do conselho(de aconselhamento) , algo que observamos por todos os lados em nosso tempo. Descreva-se isto como uma decadência da religião ou como uma perda de interesse na metafísica, mas o resultado é o mesmo;  pois ambos são centros com capacidade de integrar  e se eles são perdidos, começa então uma dispersão que nunca acaba antes que a cultura esteja completamente despedaçada. Não restam dúvidas de que os enormes esforços que a Idade Média realizou para preservar uma visão de mundo comum a todos – esforços que tomaram formas incompreensíveis para o homem moderno devido a sua falta de compreensão do que está realmente em jogo aqui- significavam uma maior compreensão da realidade do que a apresentada pelos nossos líderes moderno. Os Escolásticos entendiam que a questão do universalia ante rem ou universalia post  rem, ou a questão sobre quantos anjos poderiam existir na ponta de uma agulha, muitas vezes apontadas como exemplos da futilidade escolástica, tinham ramificações incalculáveis, de forma que se não houvesse concordância em relação a estas questões a unidade nos assuntos práticos também seria impossível.  Pois as repostas forneciam aquilo com que eles delimitavam seu mundo; estas respostas eram a fonte do entendimento e das avaliações; geraram o princípio heurístico através do qual as artes e as sociedades podiam ser aprovadas e reguladas. Tornavam os sentimentos voltados para o mundo racionais, com o resultado que podiam ser aplicadas às situações dramáticas sem jogar o homem no sentimentalismo por um lado ou na brutalidade por outro.

A imposição deste padrão ideal sobre a conduta nos salva do terrível recurso a soluções pragmáticas. Aqui, de fato, se encontra o começo do auto-controle, que é uma vitória da transcendência. Quando um homem decide seguir algo que é arbitrário até onde podem ir os usos e desusos do mundo, ele na verdade está realizando uma façanha abstrativa; está reconhecendo o mundo numenal, sendo isto, e não aquela auto-glorificação que toma a forma de um estudo de suas próprias conquistas, que o dignifica.

 

Está é a sabedoria dos ditos dos oráculos: o homem perde a si mesmo para se encontrar; ele conceptualiza para evitar uma imersão na natureza. É nosso destino nos encontramos originalmente com o mundo como nosso dado primário, mas não terminar nossa caminhada somente com uma riqueza de impressões dos sentidos. Da mesma foram que nossa cognição passa de um relato de detalhes particulares para o conhecimento dos universais, também nossos sentimentos passam de um tumulto de sensações para um conceito iluminado daquilo que se deve sentir. Isto normalmente é conhecido como  refinamento. O homem está no mundo para sofrer sua paixão; mas a sabedoria vem a seu resgate com uma oferta de convenções que dão forma e elevam esta paixão. A tarefa dos criadores de cultura é a de fornecer os moldes e armações que resistam a aquele “naufrágio da criatura moral em si mesma” que advém da aceitação da experiência bruta. Sem a verdade transcendental da mitologia e da metafísica, esta tarefa é impossível. Imagina-se que Jacob Burckhardt tinha um pensamento semelhante em mente quando disse:”Ainda assim permanece conosco um sentimento de que a poesia e toda a vida intelectual já foram algum dia  serviçais do sagrado, e passaram através do templo”.

 

O homem com auto-controle(temperado) é aquele que consegue realizar constantemente a façanha da abstração. Ele está treinado então para ver as coisas sob o aspecto da eternidade, pois a forma é a parte duradoura das coisas. Por isso invariavelmente achamos no homem de verdadeira cultura um grande respeito pelas formas(formalidades). Ele se aproxima até mesmo daquelas que não entende ciente de que um pensamento profundo se esconde em um costume antigo. Este respeito o distingue do bárbaro,de um lado, e do degenerado, de outro. Esta verdade pode ser expressa de outra forma quando se diz que o homem culto tem um senso de estilo. Estilo depende da medida, seja no espaço ou no tempo, pois a medida implica estrutura, e é a estrutura que é essencial para a apreensão intelectual.

Que não importa o que um homem acredita é uma afirmação que se ouve por todos os lados nos dias de hoje. Esta afirmação traz consigo uma implicação amedrontadora. Se um homem é um filósofo no sentido que definimos desde o começo, aquilo que ele acredita lhe diz também para quê serve o mundo. Como podem homens que discordam sobre o que o mundo é concordarem sobre as minúcias da conduta diária? A afirmação realmente significa que não importa o que um homem acredita desde que ele não leve suas crenças a sério. Qualquer um pode perceber que este é o status ao qual está reduzida a crença religiosa já há muitos anos.. Mas suponha que o homem realmente leve suas crenças a sério.  Então aquilo que ele acredita coloca um marca sobre sua experiência e ele pertence então a uma cultura, que uma é liga fundada em princípios exclusivos.  Para se tornar elegível, deve-se ser capaz de dizer as palavras certas sobre as coisas certas, o que significa por sua vez que deve-se ser um homem de sentimentos corretos. Esta frase, tão cara ao século dezoito, nos leva de volta à ultima época que pode ver o sentimento e a razão em uma parceria apropriada. 

Que a cultura é composta de sentimentos refinados e mensurados pelo intelecto se torna claro quando voltamos nossa atenção para um tipo de barbarismo que tem aparecido em nosso meio e que traz consigo um incrível poder de desintegração. Esta ameaça é melhor descrita como o desejo pelo imediatismo, pois seu objetivo é dissolver os aspectos formais de tudo e chegar até a suposta realidade que está por trás destas formas. É característico do bárbaro, apareça ele em um estágio pré-cultural ou surja das profundezas nos tempos de declínio de uma civilização, insistir na visão da coisa “como ela é”. Este desejo é testemunha de que ele não tem nada dentro de si mesmo que lhe permita espiritualizá-la; é uma relação de coisa para coisa sem a menor intercessão da imaginação. Impacientes com o véu com o qual o homem do tipo superior dá sentido imaginativo ao mundo, o bárbaro e o filisteu(o bárbaro que vive em meio a cultura), exigem o acesso ao imediato. Enquanto o homem superior deseja representação, o bárbaro insiste na crueza da materialidade, suspeitando corretamente que as formas significam restrição. Não há necessidade de falar sobre os Vândalos e o Visigotos; desde que a nossa preocupação é com a “a invasão vertical dos bárbaros” em nosso tempo, irei citar uma instância do período moderno e dos Estados Unidos, tão simbólico do mundo futuro.

 

O homem de fronteira americano era um tipo que havia se emancipado da cultura através do abandono das instituições estabelecidas no litoral e na pátria-mãe européia. Se deliciando com a ausência de restrições, ele associou todo tipo de tradição formal com o maquinário da opressão do qual ele havia fugido e que agora estava se preparando para combater politicamente. Sua emancipação lhe deixou impaciente com o simbolismo, com métodos indiretos e mesmo com aquela proteção da privacidade que toda comunidade civilizada respeita. Tocqueville fez a seguinte observação sobre tais homens “livres”: “Como estão acostumados a contar com seu próprio testemunho, gostam de discernir os objetos que chegam a sua atenção com extrema clareza; eles então retiram ao máximo tudo que os encobre, se livram de qualquer coisa que os separe do objeto, removem seja o que for que se esconde da visão, para que possam vê-lo mais próximo da clara luz do dia. Esta disposição mental logo leva a condenação de qualquer formalidade, as quais eles consideram véus inconvenientes e inúteis colocados entre eles e a verdade”.

 

Este homem de fronteira estava buscando um solvente das formas e ele encontrou seu porta voz em escritores como Mark Twain, cujo trabalho na maior parte das vezes é simplesmente uma sátira sobre a maneira mais formal dos europeus de fazer as coisas. Assim que este impulso se moveu para a Costa Leste, incentivou a crença que o formal era igual ao ultrapassado ou pelo menos não-Americano. Uma desconfiança plebéia das formalidades, florescendo em eulogias da simplicidade, se tornou a mentalidade americana característica. 

Terá a América vulgarizado a Europa ou a Europa corrompido a América? Não há resposta para esta questão, pois ambos se entregaram, cada um a sua maneira, aos mesmos impulsos.  A Europa a muito começou a gastar sua grande herança das formas medievais, fazendo com que Burke, no fim do século dezoito, estivesse agudamente consciente de que “a graça gratuita da vida” estava desaparecendo. A América é responsável pela vulgarização do Velho Mundo somente no sentido de que, como uma locomotiva, trouxe os impulsos ate sua fruição mais rapidamente. Têm a honra duvidosa de ter um lugar de destaque na procissão. Existem hoje sinais no mundo inteiro de que a cultura, em si mesma, está marcada para um ataque, devido ao fato de que suas exigências formais obstaculizam a livre expressão do homem “natural”.

 

Muitos não conseguem entender o porquê de se permitir que formalidades impeçam a a livre expressão de corações honestos. A razão se encontra em uma das limitações impostas ao homem: a expressão não formal sempre tende para a ignorância. A boa intenção é fundamental, mas não é suficiente; está é a lição retirada do romantismo.

 

O membro de uma cultura, por outro lado, propositadamente evita o imediatismo; ele de alguma forma quer que o objeto seja retratado e ficcionalizado, ou, como Schopenhauer expressou, ele não quer a coisa, mas a idéia da coisa. Ele fica embaraçado quando isto é retirado de seu contexto de sentimentos apropriado e apresentado nu, pois trata-se de uma reintrusão daquele mundo que todo o seu esforço consciente tentou banir. As formas e as convenções são a escada da ascensão. E daí provém a falta de palavras do homem culto quando ele vê um bárbaro destruindo algum véu que é metade adorno e metade ocultação. Ele entende o que está sendo feito, mas não pode transmitir a compreensão, pois não pode também transmitir a idéia do sacrilégio. Seus clamores de aheste profani não são escutados por aqueles que durante o êxtase de se quebrar mais uma restrição sentem estar estendendo as fronteiras do poder ou do conhecimento.

 

Todo grupo que se considera como emancipado está convencido de que seus predecessores tinham medo da realidade. Tal grupo olha para os eufemismos e todos os véus da decência que antes cobriam as coisas como obstruções, as quais ele irá destruir com toda sua sabedoria superior e louvável coragem. A imaginação e o indireto são identificados com o obscurantismo; o mediato é um inimigo da liberdade. Pode-se ver isto até mesmo em curtos períodos de tempo; como o homem de hoje olha com desprezo para as proibições de 1890 e supõe que a violação delas não trouxe nenhuma penalidade!

 

Este homem sofreria uma forte desilusão se tivesse um padrão claro o suficiente em sua alma para medir as diferenças; mas uma das conseqüências desta libertinagem é que o homem perde sua capacidade de discriminação. Pois, quando estes véus são jogados de lado, não encontramos nenhuma realidade por trás deles, ou, na melhor das hipóteses, encontramos uma realidade tão banal que voltaríamos voluntariamente atrás em nosso pequeno ato de impetuosidade. Aqueles que são capazes de reflexão percebem que a realidade que nos excita verdadeiramente é a da Idéia, que tem como componentes fundamentais a mediação, o véu, o ato de esconder. São nossas várias suposições sobre as coisas que lhes dão significado e não alguma propriedade intrínseca que pode ser tomada por um ataque direto do tipo bárbaro. Em uma passagem maravilhosamente presciente Burke previu os resultados de tal positivismo quando ele foi libertado pela Revolução Francesa: “Todas as ilusões agradáveis, que tornavam o poder gentil e a obediência liberal, que harmonizavam as diferentes matizes da vida, e que, por uma assimilação branda, incorporaram à política os sentimentos que tornam suave e bela a vida privada, serão dissolvidas por este novo e conquistador império das luzes e da razão. Todos os revestimentos decentes da vida serão rudemente arrancados. Todas a idéias sobre impostas, retiradas do guarda roupa da imaginação moral, , que o coração sente e o intelecto ratifica como necessárias para cobrir os defeitos de nossa natureza nua e original  e para nos elevar em dignidade, serão explodidas como modas ridículas, absurdas e antiquadas.

 

O barbarismo e o filistinismo não podem ver que o conhecimento da realidade material é o conhecimento da morte. O desejo de se aproximar cada vez mais da origem das sensações físicas – este é o impulso para baixo que acabar com a vida das Idéias. Nenhuma educação é digna do nome se falha em afirmar o ponto de que o mundo é mais bem entendido a partir de uma certa distância ou de que o entendimento mais elementar exige algum nível de abstração. Insistir em qualquer coisa inferior a isto é equivalente a nos fundir com a realidade exterior ou capitular frente a interminável indução do empirismo.

 

Nossa época contém muitos exemplos de destruição através do imediatismo, dentre os quais o mais claro de todos é a  falha da mente moderna em reconhecer a obscenidade. Esta falha não tem conexão alguma com a decadência do puritanismo.  A palavra é usada aqui no seu sentido original para descrever aquilo que deve ser realizado nos bastidores, pois é inapropriado para a exibição pública. Tais ações, deve se enfatizar, talvez não tenham relação alguma com puras funções animais; incluem a humilhação e o sofrimento intenso, os quais os Gregos, com habitual perspicácia e humanidade, baniram de seus teatros. Os Elizabetanos, por outro lado, não deixaram de ser obscenos mesmo com todas as suas robustas alusões às condições animais da existência humana. O segredo de tudo está na forma em que se toca nestes assuntos.

 

Este fracasso do conceito de obscenidade ocorreu simultaneamente à ascensão da instituição da publicidade, instituição essa que ao tentar aumentar cada vez mais sua esfera de atuação(em concordância com os cânones do progresso) torna a dessacralização uma virtude. No século dezenove esta mudança apareceu visivelmente no mundo, gerando expressões de preocupação das pessoas que haviam sido educadas em uma tradição de sentimentos apropriados. A propriedade, como outros ancoradouros fora de moda, foi abandonada porque inibia alguma coisa. Orgulhoso de sua falta de decência, o novo jornalismo descobriu em um estilo impressionante assuntos que antes estavam velados por uma decente taciturnidade. Era natural que um apóstolo da cultura como Matthew Arnold percebesse o inimigo mortal que se levantava. Depois de um passeio pelos Estados Unidos em 1888, ele registrou sua convicção de que “se alguém estivesse procurando pelos melhores meios de se fragilizar e matar em toda uma nação a disciplina do respeito próprio, o sentimento por aquilo que é elevado, ele não poderia nunca encontrar algo melhor do que os jornais americanos”. Será por isso que, dois séculos antes, um governador da Virgínia teria agradecido a Deus, para o escândalo das gerações seguintes, o fato de não existir nem mesmo um jornal na colônia?  Teremos aqui mais um exemplo do mal sendo discernido mais claramente quando primeiro aparece? O que este governadir observou em gestação cresceu tão desmesuradamente que hoje podemos encontrar meios de publicidade que efetivamente se especializam no tipo de obscenidade que o homem cultivado, e não o pruriente, acha repugnante, e que foi proibida pelos mais sábios dos antigos.

 

De qualquer forma, coube ao mundo da ciência e do racionalismo fazer do privativo e ofensivo um negócio. Revistas semanais e tablóides levam a milhões cenas e fatos que violam qualquer definição de humanidade. Quão comum se tornou hoje ver estampado na página principal de algum jornal a face agonizante de uma criança atropelada na rua, a expressão de morte de uma mulher esmagada por um trem de metrô, cenas de execuções e de uma tristeza privada intensa. Isto são obscenidades. O crescimento do jornalismo sensacionalista em todos os cantos é testemunha da perda de pontos de referência do homem moderno, de sua determinação de desfrutar o proibido em nome da liberdade. Toda compostura e reserva está sendo sacrificada no altar da curiosidade. Os extremos da paixão e do sofrimento são servidos para animar a mesa do café da manhã ou para iluminar o tédio de uma noite em casa. A privacidade foi abandonada porque a definição de pessoa foi perdida, não há mais um parâmetro para se julgar o que é apropriado ao homem individual. Atrás da ofensa se esconde o repúdio do sentimento em favor do imediato.

 

Há argumentos baseados em uma plausibilidade insidiosa que parecem vindicar está publicidade. Diz-se que este material são os fatos brutos da vida e que não compete aos órgãos de informação pública enganar ninguém sobre a real natureza do mundo. A asserção de que este é o mundo real remete à mais importante questão de todas.  Os fatos brutos da vida são precisamente aquilo que o homem civilizado deseja refinar ou apresentar em uma moldura humana, algo que somente o sentimento pode permitir. As sensações apresentadas pela imprensa são sem dúvida voltadas para o “demos”(povão), que é carente de compreensão,mas ávido por emoções. Teremos a oportunidade de observar em várias conexões que uma das grandes conspirações contra a filosofia e a civilização, uma conspiração ajudada imensamente pela tecnologia, é exatamente esta substituição da reflexão pela sensação. A máquina não pode respeitar sentimentos e não é coincidência que a grande parada da obscenidade surgiu rapidamente após a tecnificação de nosso mundo.

 

É inevitável que a decadência do sentimento seja acompanhada por uma deterioração das relações humanas, tanto as familiares como as ligadas à amizade, pois a paixão pelo imediato se concentra no que é presentemente vantajoso. No fim, não há nada senão o sentimento para nos ligar aos muito velhos ou os muito novos. Burke percebeu este ponto quando disse que aqueles que não tem nenhuma preocupação com seus ancestrais  também não terão nenhuma com seus descendentes. A decisão do homem moderno de viver no aqui e agora se reflete na negligência em relação aos mais velhos, que antes eram mantidos em uma posição de honra e autoridade. Houve um tempo em que os mais velhos eram amados porque representavam o passado; agora são evitados e colocados longe da vista pelo mesmo motivo. As crianças são responsabilidades. Com o homem se tornando mais imerso em gratificações temporárias e materiais, a crença na continuidade da raça desaparece e nem mesmo todos os experimentos dos sociólogos irão reunir os lares novamente.

 

Às vezes, quando esse ponto é trazido a discussão, surge o argumento de que a vida urbana torna os relacionamentos do tipo antigo impossíveis. Não pode existir dúvida em relação à verdade desta proposição, mas o próprio fato de que isto é colocado como uma apologia já é um sinal de perversão. Pois a motivação é o fator decisivo, e se nossa visão de mundo tivesse permanecido justa, a vida urbana congestionada, prejudicial em várias outras maneiras também, não teria se tornado a norma. A materialização da vida em uma selva urbana não pode ser colocada como causa desta mesma concepção. Quando as pessoas colocam o mais alto valor nas relações humanas não demora muito para que encontrem acomodações materiais para isto. Estamos lidando aqui, como em todos os outros pontos, como nossa visão do que é uma boa vida.

 

Na Megalópole o sentimento de amizade se perde. Amigos se tornam, dentro da vulgaridade da linguagem moderna, colegas, que podem ser definidos como pessoas as quais o  trabalho força à convivência ou, em um nível mais rebaixado ainda, pessoas que permitam serem usadas para a vantagem própria de outrem. O encontro de mentes, a simpatia entre personalidades que todas as comunidades civilizadas consideravam como parte da boa vida, demandam sentimento demais de um mundo de máquinas e de falso igualitarismo, e pode até se detectar uma breve suspeição de que a amizade, por se fundamentar na seletividade, é antidemocrática. É este tipo de mentalidade que irá estudar com uma perfeita ingenuidade um livro sobre como ganhar amigos e influenciar pessoas. Para alguém criado em uma sociedade espiritualmente fundida – o que irei chamar de comunidade metafísica – uma campanha para ganhar amigos deve ser algo incompreensível. Amigos são atraídos por uma personalidade, se ela é do tipo certo, e qualquer tentativa consciente é inseparável de uma astúcia mesquinha.  E a arte de se manipular personalidades obviamente presume um desrespeito pela personalidade. Somente em uma comunidade desestruturada, onde o espírito foi desnutrido até o ponto da atrofia, pode tal impostura florescer.

 

Quando os sentimentos primordiais de um povo se enfraquecem, invariavelmente se segue o declínio da crença no herói. Para enxergarmos a significação disto, devemos entender que o herói nunca pode ser um relativista. Considere por um momento o soldado tradicional (e não algum dos autômatos que compõem os exércitos modernos) como herói.  Pode parecer paradoxal a princípio dizer que ele é de todos os membros do público aquele mais distante do pragmatismo; mas ainda assim, seu chamado é absoluto. Dê-lhe motivos prudentes e ele logo se transforma em um Falstaff. Ele entrega seus serviços a causas que são formuladas como ideais e é ensinado a colocá-las cima da vida e da propriedade, como as cerimônias de consagração militares deixam claro. Pode se ver esta verdade bem exemplificada na formalização extrema da conduta de um soldado, uma formalização que é levada até o caos da batalha; um exército bem treinado se movendo em ação é uma imposição da ordem máxima sobre a desordem máxima.  Por isso o soldado histórico não é por definição o cego e irracional agente de destruição em que alguns autores contemporâneos querem transformá-lo. Ele é, na verdade, o defensor da ultima ratio, o último protetor da razão.  Qualquer ação que implique no sacrifício da vida tem implicações transcendentes e a preferências pela morte em detrimento de outras formas de derrota, do “destino pior que a morte”, é, no nível secular, o exemplo mais alto de dedicação. Parece haver pouca dúvida de que a antiga solidariedade entre o padre e o soldado – uma solidariedade que tem se tornado impossível hoje, no momento em que a guerra mecanizada em massa retira o soldado do reino da significância ética – se baseia neste fundamento.

 

Em adição a isto, o desaparecimento do ideal heróico é sempre acompanhado pelo crescimento do comercialismo. Há uma relação de causa e efeito aqui, pois o homem de comércio é pela natureza das coisas um relativista; sua mente está sempre nos valores flutuantes do mercado, e não há maneira mais rápida para seu fracasso do que a moralização e a dogmatização em relação às coisas.  “Negócios e sentimentos não se misturam” é um adágio da maior importância. Explica a tendência de todas as sociedades orgânicas em excluir os comerciantes das posições de prestígio e influência; explica, tenho certeza, a restrição de Platão aos mercadores.  O caráter empírico da filosofia britânica não pode deixar de estar relacionado com o hábito comercial de uma grande nação mercantil.

 

Alguma forma de sentimento, derivada de nossa orientação em relação ao mundo, se encontra na base de toda a congenialidade. Ao desaparecer, deixa as cidades e nações como meras comunidades empíricas, que são apenas pessoas vivendo juntas em algum lugar, sem amizade ou compreensão mútua, e sem a capacidade, mesmo quando o dia chegar, de se unir para a sobrevivência. Do outro lado está a comunidade metafísica, imbuída de um sentimento comum sobre o mundo, o que permite que todas as vocações se encontrem sem embaraço e desfrutem da força que advém de uma tendência comum. Nossa demanda deve ser, então, pela recuperação do sonho metafísico que pode nos livrar dos pecados da sentimentalidade e da brutalidade. Será que sua ausência não explica porque

Aos melhores falta toda convicção, enquanto os piores estão cheios de intensidade apaixonada? 

Sem esta grande fonte de ordem, nossas intensidades se viram para afeições vulgares e drenam nossas energias ou se condensam em ódios que nos consomem. De um lado está a sentimentalidade, com sua emoção voltada para o trivial e o absurdo; de outro está a brutalidade, que não pode fazer nenhuma distinção na aplicação de sua violência. Tempos reconhecidos por sua crueldade devem ser mais respeitados do que aqueles renomados, como o nosso está se tornando, pela brutalidade, pois a crueldade é refinada e, ao menos, discrimina seus objetos e intenções. As terríveis brutalidades da guerra democrática demonstraram quão pouco a mente das massas é capaz de ver a virtude da seleção e da restrição. A negação em se ver distinção entre criança e adulto, entre os sexos, entre combatente e não combatente – distinções que se encontram no coração das ordens de cavalaria do medievo- a determinação de misturar tudo em uma unidade sem forma de peso e massa, isto é a destruição da sociedade através da brutalidade. O barulho das máquinas é seguido pelo coro da violência; e a acumulação de riquezas, a que os Estados se dedicam, é perdida no fanatismo cego da destruição. Aqueles que basearam suas vidas na desinteligência da sentimentalidade lutam para se salvarem com a desinteligência da brutalidade. 

A única redenção se encontra na restrição imposta pela idéia; mas nossas idéias, para não causarem anda mais confusões, devem ser harmonizadas por alguma visão. Nossa tarefa é muito parecida com a de se achar a relação entre fé e razão em uma época que não conhece o significado da fé.

Publicado em: on Abril 2, 2007 at 1:07 pm Comentários (1)

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  1. Excelente texto. Parabéns.


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